AVENTURA IBÉRICA

No fim da aventura, seria mesmo no penúltimo dia, senti uma bota nas costelas e acordei, os cães a ladrar, dentes arreganhados como os seus donos: toca a sair daqui! Get up!

Estava eu a dormir tão bem… Eram 3h da madrugada na praia de Albufeira quando chegou a GNR. Acordei eu e mais uns 20 ou 30 turistas, quase todos nórdicos, que partilhavam o mesmo hotel a custo zero. Colchão macio de areia, ar-condicionado da brisa nocturna e o tecto estrelado. Só não contava com o serviço de despertar tão cedo. Não percebi muito bem qual era o mal de haver gente a dormir na praia pois a multidão chegava muito depois de todos se levantarem. Enfim, era essa a política municipal, tentando dissuadir a vinda dos turistas menos abonados em favor dos outros. Uma hora depois a Guarda foi embora e voltámos todos para a “cama”. Era setembro, e o ano 1979.

A viagem tinha começado uns bons dias antes, ainda em agosto. A primeira paragem relevante foi em Mérida, na Estremadura espanhola. Fiquei assombrado com a dimensão das ruínas romanas pois a  única coisa romana que tinha visto ao vivo tinha sido Conímbriga, bonita mas pequena. Depois, já na Andaluzia, deslumbrei-me com Sevilha. Toda a arquitectura, em especial a das casas com terraço no interior, a enorme catedral com a sua torre decorada, ou a grande Plaza de España coberta de azulejos, ou será melhor dizer amarelejos, pois essa era a cor dominante. Nas tasquinhas era possível petiscar, por um preço bastante razoável, presunto, enchidos e queijos.

Novamente na estrada, as boleias seguintes levaram-me onde eu queria, até Granada. Aí, o contacto com a herança árabe foi marcante.  Nunca tinha visto nada parecido e o ambiente de tranquilidade que senti na Alhambra foi uma sensação indescritível. Apesar dos muitos turistas havia sossego, frescura,  o som da água nas fontes, os jardins acolhedores e a arquitectura e decoração tão complexas e tão bonitas. Uma família árabe sentia-se de igual modo, apesar de ter vindo da Argélia. Até parecia que na terra deles não havia nada igual. Perguntei o que significavam as frases escritas nas paredes há tantos anos e responderam que eram poemas de exaltação escritos de forma antiga e de tradução difícil. Não sei se é verdade mas na altura não tinha guia de bolso para explicar as dúvidas.

A paragem seguinte foi Málaga mas não retive detalhes. Perto, a então famosa praia de Torremolinos, um formigueiro desconfortável de turistas, de onde fugi o mais rapidamente possível.

Foi à saída de Torremolinos que alguma coisa interessante aconteceu. O carro que parou quando eu estava a pedir boleia era um furgão Volkswagen carregado de pranchas e velas. A resposta: “está bem, dou boleia mas ajudas-me a descarregar o material na praia”. Era um alemão que não parecia alemão e que era dono de uma escola itinerante de windsurf. Tinha 6 meses de férias, que passava no  Mediterrâneo com a escola, e era bancário no resto do ano.

Claro que aceitei e retomei a viagem. Algumas horas depois, sem contar, num miradouro da estrada antiga, vi o morro de Gibraltar. Do outro lado do mar, a Coluna de Hércules africana envolta na bruma. Era a primeira visão do continente desde que o tinha deixado em 1975, e seria a última até uma fase muito tardia da vida.

Durante alguns dias aproveitei a oportunidade e fui empregado na escola ambulante de windsurf. O trabalho era simples: de manhã, desenrolar as velas e espalhar as pranchas e os anúncios, durante o dia ajudar os clientes a levar e a trazer o material da água, e ao fim do dia arrumar tudo novamente. As refeições eram pagas pelo patrão alemão. à noite, o hotel “Estrelas na praia” era muito confortável. Fomos por duas ou três praias, não me lembro quais, até chegar à de Albufeira, local onde me despedi para retomar o meu percurso.

E assim regressamos ao início da memória e aos cães pastor-alemão. Estava na hora de voltar ao Porto, depois da primeira aventura à boleia pela Ibéria, onde tinha visto coisas maravilhosas e percorrido mais de 2000 km, no tempo em que não havia as modernas auto-estradas.

 

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