EUROPA

Já não tínhamos uma refeição de jeito há 3 semanas. Basicamente tínhamos andado todo o tempo a comer sandes de queijo ou mortadela, iogurtes, leite e pouco mais. Era difícil  quanto baste andar pela Europa fora com bolsa de português. Em 1983, ainda a moeda era o escudo, perdia-se muito na conversão, mas era no custo das coisas que ficávamos sempre a perder. Comida, alojamento, transportes ou bilhetes de entrada fosse onde fosse, era tudo mais caro. Não, não era fácil viajar antes da nossa adesão à então Comunidade Económica Europeia, actual União Europeia.

Mas aqui encontrámos um país ainda mais pobre do que o nosso e até fomos jantar ao restaurante. Soube tão bem uma sopa bem quente, e pedacinhos de carne estufada acompanhados por bolinhas de puré de batata tostadas na frigideira.  Para sobremesa, um grande cacho de uvas muito doces. Faltou dizer que a refeição foi feita à luz de candeeiro a petróleo pois a electricidade tinha sido cortada às seis da tarde, como era habitual. Tínhamos chegado no comboio ao início da tarde e tivemos sorte na pousada de juventude que estava meio vazia: um quarto limpo e muito agradável, não uma camarata escura e ruidosa como as que tínhamos usado em vários países. Depois demos uma volta pelo centro de Split, pois foi aqui que viemos ter, o ponto mais afastado de casa, o ponto de iniciar o regresso ao Porto.

Terra meio turística na costa do mar Adriático, em final de setembro já estava com poucos estrangeiros. As lojas tinham aspecto muito pobre, o talho só tinha enchidos. Valeu a pena  ir à feira no dia seguinte, parecia que estávamos em casa tal a semelhança com as de Espinho, Barcelos ou de Custóias. A mesma tipologia de feirantes, os trapos e sapatos, as louças e as hortaliças, só a linguagem era diferente. No porto de mar, duas dúzias de pequenos iates, prova de apetência de turistas de uma Europa mais rica por esta zona de pequenas praias e águas quentes, tudo ao preço da chuva.

Nessa altura a Jugoslávia ainda era um país.  Era conhecido pela maior abertura ao ocidente, em comparação com os restantes países da antiga cortina de ferro. Apesar das limitações, esse ambiente mais solto era visível aqui em Split, em forte contraste com o que tínhamos visto em Zagreb dois dias antes: uma cidade escura (quase sem iluminação pública), de ambiente pesado, desconfiado, pessoas curvadas e uma presença policial muito forte. Aí tínhamos esperado horas nos correios para conseguir fazer uma chamada internacional para casa, sempre alguém a escuta. Antes, o nosso aspecto ocidental já tinha atraído dois interessados em comprar as nossas calças de ganga, produto muito apreciado, da mesma forma o café. De tal forma que fronteira de entrada no país uma brigada militar tinha percorrido as carruagens do comboio revistando tudo e todos. Pensei que andavam à procura de alguém e só depois me disseram: alguém não, o quê… Café! E outros produtos de contrabando.

Tínhamos comprado bilhetes INTERRAIL, que davam direito a um número muito razoável de percursos nos comboios europeus em segunda classe. para poupar no orçamento da viagem, escolhemos fazer muitos dos trajectos no período nocturno e nessas noites mal dormidas não se gastou em alojamento. Nas outras noites ficámos em pousadas de Juventude ou em pensões de terceira, o que nos proporcionou alguns episódios desagradáveis.

França, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Luxemburgo, Suíça, Áustria,  Jugoslávia e Itália foram os países onde visitámos capitais e aldeias, monumentos e museus, paisagens e parques. Paris já era conhecida, assim como Londres, mas aí foi possível visitar alguns dos marcos que não o tinham sido anteriormente. Foram completa novidade os canais de Amesterdão e a arquitectura tão curiosa da cidade, a catedral de Colónia, imensa e asfixiada por uma estação ferroviária  construída no sítio errado, o Lago de Genéve a enquadrar a cidade, a neve de agosto nos Alpes, o centro do Luxemburgo decorado tão airosamente, a Áustria tão formal, a Roma tão caótica com o Coliseu a desfazer-se, e a então Jugoslávia, país para lá da cortina de ferro.

Terras onde vimos pessoas e costumes diferentes, e onde tivemos desencontros de linguagem, alguns deles caricatos, outros incómodos. Tivemos de tomar decisões, construir consensos e gerir expectativas em função de distintos interesses. Enfim, a matéria-prima que nos faz aprender, amadurecer,  relativizar o que se passa no dia-a-dia mais perto de nós, que nos ajuda a interpretar com mais tolerância as diferenças que nos vão surgindo na vida. Tantas são as vezes em que nos olhamos e dizemos de alguém: se tivesses visto mais mundo não dirias tanta asneira.

O prazer intenso daquela refeição nunca mais foi esquecido, evento tão simples numa viagem tão rica de acontecimentos e ensinamentos.

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