O MATADOR

O corpo salta e corre desajeitadamente sem saber que já morreu. O sangue espalha-se pelo chão em pinturas esguichadas. O homem, machado avermelhado na mão, com todos a ver, calados mas desaprovadores, sente-se derrotado e desvia o olhar enjoado. A cabeça decepada, olhos fechados, ficou pousada na tábua de madeira.

Depois de duas frenéticas voltas ao quintal, finalmente, a galinha sem cabeça tomba. 

A cena triste não mais se repetiu. Da vez seguinte que foi necessário sacrificar um galináceo, tomei o lugar do “homem da casa” e dei conta do recado em três tempos, sem contratempos. E foi assim que aos 8 anos fui nomeado “O” matador de galinhas da família.

Naquele tempo não se comprava frango no talho ou no supermercado. Ia-se buscar o dito ao galinheiro, que muitos  tinham, ou comprava-se aos vendedores ambulantes que passavam com frequência na rua, gaiola de verga à cabeça.

Ao longo dos anos, sempre que necessário, encarreguei-me da tarefa de matar galináceos, sobretudo, mas também patos. Até cheguei a ajudar a matar peruas, o que sucedia todos os natais. Estas, robustas? e com muita força, davam trabalho para dois, um quarto de hora depois de lhes administrar um pouco de aguardente, com ajuda de um funil. E não para temperar, como já ouvi dizer várias vezes, mas para entorpecer.

Depenar as aves era o passo seguinte, e era desagradável. Fervia-se um panelão de água que se despejava num alguidar e onde o bicho era molhado durante algum tempo para amolecer a pele. Depois era rodeado por todos a arrancar as penas o mais rapidamente possível. Durante a operação o animal era remolhado uma ou duas vezes mais até saírem todas as penas, e também as escamas das esgravatadeiras, as deliciosas patas que iam para a canja. No fim, ficavam os dedos queimados e um mau cheiro, enjoativo, e que teimava em não desaparecer do nariz, mesmo depois de passadas um par de horas.

Durante a vida adulta não foram muitas as vezes em que tive de exercer a função, pois a vida mudou muito. Foi só após os 40 anos de idade que alguma coisa se passou dentro da cabeça, de forma tal que passei a rejeitar veementemente a tarefa de matar animais domésticos. Tinha fechado um ciclo.

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