O ASSALTO

Gente aos gritos e muito fumo por todo lado. Há quem consiga deitar a mão a grandes caixotes a arder e os desfaça rapidamente, tentando salvar o conteúdo e atirando-o para fora. Caixas caem no chão, e também rolos de pano e outras coisas que não vi bem. As chamas crepitam cada vez mais, está o comboio inteiro a arder!

Não sei bem como mas, mesmo antes da máquina parar na estação de Camacupa, já se sabia que havia fogo. Talvez algum carro a passar na estrada tivesse visto a composição a rolar em chamas e, ao chegar à vila, tivesse alertado quem passava. O facto é que, em pouco tempo, uma pequena multidão estava em volta das carruagens a arder e, à medida que o incêndio aumentava, mais gente ia chegando. Quem tinha mais coragem entrava, agarrava os caixotes, e atirava-os para o cais antes que se queimassem. Depois, pegavam em alguns  e iam embora, deixando o que não podiam transportar. Muitos dos até aí observadores, aproveitando as caixas soltas, semi-queimadas, arrombadas ou mesmo intactas, converteram-se em cúmplices do maior assalto colectivo a que assisti na vida. Devo dizer que foi o maior, mas foi também o único. E parecia mesmo uma cena de um daqueles filmes do oeste americano.

Estaria a cerca de 100 metros da estação quando o comboio chegou e, claro, corri para lá. Também eu, cúmplice no assalto, tive sorte e agarrei 2 caixas de cartão. Sim, posso dizer que tenho no currículo o assalto ao comboio. Não é propriamente motivo de orgulho, é mais uma aventura de adolescente. E com a atenuante de saber que tudo se teria transformado em cinza, não fosse a intervenção dos assaltantes. Todos  se sentiram imediatamente com direito à propriedade dos salvados, à boa maneira dos naufrágios de antigamente, quando se davam perto da praia.

Quando as mangueiras acabaram com o fogo já não havia muito para salvar. Foi tudo muito rápido, teriam passado uns escassos vinte minutos.

Chegado a casa, os dois caixotes revelaram o conteúdo. Eram bolachas, em embalagens muito coloridas como nunca tinha visto. De fabrico inglês, destinavam-se a territórios que tinham sido anteriormente colónias britânicas, nomeadamente a Zâmbia e a Rodésia, actual Zimbabwe.

A mercadoria tinha sido carregada no porto do Lobito e deveria atravessar todo o território angolano no caminho-de-ferro de Benguela até chegar a esses países, como era habitual nessa época. No regresso era transportado sobretudo minério de cobre, com destino à Europa. Esta linha de abastecimento foi fundamental para os interesses ingleses, durante quase todo o século 20. Para a sua construção constituiu-se uma empresa inglesa que obteve  as necessárias autorizações da monarquia portuguesa. Nas obras (1902-1928) contribuíram milhares de trabalhadores de vários países, cuja contratação teve a intervenção de um advogado que viria a tornar-se famoso: Gandhi.

Voltando à minha memória, nos meses seguintes reparei que em quase todas as lojas da terra se vendiam bolachas inglesas, bem como outros produtos subtraídos ao comboio. Quem tinha aproveitado melhor o saque tinha-o vendido às lojas, provavelmente por um preço  ridiculamente baixo.

Também lá em casa, durante algum tempo, comemos bolachas de luxo. É certo que sabiam ou cheiravam um pouco a fumo, mas quem se importava?

 

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