BAFORADAS

O Né  tinha oito anos e roubava charutos. Não sei bem quando começou, quantas vezes se repetiu, nem quando terminou,  mas era mesmo assim. O miúdo, forte pronúncia do Porto, trazia-os de casa, ufano.

Naquele tempo passávamos grande parte do dia fora de casa, que servia basicamente para dormir e comer. Não havia televisão, computador, jogos electrónicos… Construíamos alguns dos nossos brinquedos ou jogávamos com o que se improvisava no momento. Quando não estávamos na escola primária, brincávamos na rua ou nos quintais de uns e de outros. E era nos arrumos da casa de algum de nós  que acendíamos os charutos e fazíamos baforadas com o nariz empinado e gestos pomposos, imitando adultos.

Na verdade nunca ninguém nos tinha dito que não podíamos fumar os ditos e, portanto, tecnicamente não estávamos a desobedecer. Uma lógica imbatível.

Anos mais tarde repeti as baforadas mas com outra sofisticação. Mais espigadote, outra terra, outras companhias, a idade da afirmação no grupo, o habitual “és maricas se não fizeres”. Comprava-se tabaco avulso nas lojas que vendiam quase tudo. Um de nós que não era conhecido naquela loja comprava um ou dois cigarros para cada, ou pedíamos a algum mais velho, ou a um forasteiro que fosse a passar, pagando o favor em tabaco, obviamente. Havia várias marcas de cigarros, por exemplo os que vinham em cilindros de duzentas unidades, os francesinhos, tinham o desenho de um galo e eram os mais baratos. Não tinham filtro e o cheiro não era grande coisa, mas serviam para o efeito pretendido.

Claro está que se fumava às escondidas, mesmo nos intervalos da escola, e não raras vezes alguns foram apanhados, eu só uma vez.  Nas traseiras do liceu havia um campo com erva muito alta. Quando digo alta, quero dizer mesmo alta, cerca de 2 metros. Com os canivetes, cortámos um círculo na erva junto ao chão. Depois juntámos o topo do capim em redor com um fio, fazendo uma espécie de cabana escondida no meio da restante erva. Estávamos a fazer as nossas baforadas de adolescentes quando apareceu uma professora. A cabana, imitando-nos, também fumegava. Alguém, dizendo-o em alta voz, tinha desencadeado a visita inesperada. Há sempre um denunciante…

Recebemos o respectivo castigo nas mãos com a pesada régua de madeira. Para mim foi o primeiro e o último.

Em adulto raras vezes fumei, apenas cigarrilhas ou charutos em ocasiões especiais e boa companhia, sempre com prazer, obviamente.

De qualquer modo, posso dizer que deixei de fumar aos 13 anos de idade.

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