SEGUNDA VINDIMA

Estava dentro da antiga cavalariça. Lá fora, o céu iluminava-se repetidamente com os relâmpagos da maior trovoada que alguma vez tinha presenciado. Regressei ao beliche da cavalariça (nesta já não havia cavalos) para uma noite bem dormida.

Estava na aldeia de Castillon-la-Battaille, assim pomposamente chamada em homenagem a uma batalha que, no século 15, pôs fim à guerra dos 100 anos. Tinha chegado aqui à procura de uma quinta que me contratasse para ajudar na vindima. No ano anterior tinha vindimado na região de Cahors, Toulouse, integrado num grupo de portugueses. Desta vez escolhi a zona do famoso Bordeaux, e sozinho.

Ingénuo, pensando ser tudo muito fácil, não preparei a viagem. Na estação de Bordéus perguntei para onde deveria ir para encontrar muitas vinhas. Evidentemente que me responderam que era em todo o lado, mas lá me aconselharam a  linha de Libourne. Escolhi uma estação ao acaso e comprei o bilhete. Para fugir aos ladrões, portugueses incluídos, que rondavam os viajantes sem tecto, dormitei junto ao cais de embarque e apanhei o comboio das seis da manhã. Em Castillon avancei a pé para os arredores, que eram visivelmente perto. Perguntei nas primeiras duas quintas e tive duas negas. Já tinham equipa e não era ainda tempo de vindima. Desencorajador. Começou a chover e continuei a andar pela berma da estrada, guarda-chuva aberto e encaixado na mochila para ter as mãos livres.

Na terceira quinta não entrei pela longa alameda de castanheiros da Índia, que avaliei de “fina” demais. Contudo, logo adiante, junto a uma entrada de serviço, estavam três  homens a arrancar uma raiz de uma árvore, recentemente caída. Entrei e perguntei se também já tinham a equipa de vindima completa. O mais velho quis saber de onde eu era. Portugal. De certeza que não era inglês? “Avec le parapluie…” Não, Portugal mesmo. A equipa estava completa, mas convidaram-me para almoçar que já era hora. 

Falar francês ajudou, e a conversa também despertou a curiosidade dos proprietários. Ofereceram cama e alimentação se eu ajudasse, por duas semanas, a tratar dos cavalos. Claro que aceitei, e o trabalho não custou.

Fui recebido muito bem, comia com a família, levaram-me a passear aos fins de semana e ensinaram-me muito sobre vinhos franceses, provas incluídas nas adegas dos amigos. Adorei o  Saint-Émilion.

Quando os outros trabalhadores vieram começou a vindima. Mas isso não importa muito para a história, a não ser que lá voltei nos dois anos seguintes, altura em que a mecanização acabou com a recolha manual e toda a festa em seu redor. Recebi bem pelo trabalho efectuado ao longo das duas semanas de vindima mais um bónus como moço de estrebaria, e arranquei para a minha primeira visita a Paris, quanta emoção. Seguiu-se Londres, outro deslumbramento, onde gastei em material fotográfico quase tudo o que tinha ganho. Estas duas visitas dariam duas longas histórias.

Foram umas férias de aventura e descoberta, não só de cultura e conhecimento, mas sobretudo de mim próprio.

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