Aprender a controlar uma canoa, melhor dizendo, uma piroga, num rio com de jacarés foi uma aventura. Se fosse hoje, diria imprudência. Mesmo! Mas afinal nunca ocorreu qualquer percalço.
No rio Cunene, como em muitos rios e lagos de todo o planeta, a piroga é feita de um tronco de árvore escavado. A tecnologia da sua construção é simples mas carece de habilidade e estão documentados achados arqueológicos de exemplares deste meio de transporte pelo menos desde o neolítico. A propulsão obtém-se com movimentos sucessivos de remos ou de uma vara longa que se apoia no fundo, sendo estes métodos usados em diferentes regiões.
Por natureza intrínseca do seu formato, qualquer piroga é pouco estável. Nas condições de uso normal, o seu peso somado ao dos ocupantes e eventualmente de alguma carga, deslocam a linha de flutuação para apenas dois ou três dedos da borda. A oscilação derivada do movimentar do remo ou da vara tem de ser minimizada para a água não entrar, o que pode provocar o mergulho quando o equilíbrio se perde. Era este o desafio que me levava até ao rio, sempre que a vigilância parental abrandava, e as lições sucessivas em processo autodidacta resultaram. Anos mais tarde, nunca tive problemas no controle de embarcações, o que me foi útil nos trabalhos de campo e na obtenção da “carta de patrão local”, que permite a navegação até à distância de 5 milhas marítimas da costa.
As férias nos confins do sul de Angola, com acampamento na margem do rio Cunene, providenciaram experiências notáveis, para além das aventuras náuticas. Foi aí que experimentei pela primeira vez usar o arco e flecha, tendo constatado que exige muito mais força do que os filmes do oeste faziam supor. Foi aí que me surpreendi com os detalhes de uma aldeia do povo Mucubal, com vestuário de peles e penteados com leite e barro vermelho. Foi aí que contactei com colonos descendentes de alemães exilados, bebiam como esponjas. E tantas outras coisas como pescar num rio com grande diversidade com peixes, alguns deles muito curiosos, como os roncadores que se faziam ouvir durante a noite ou quando eram pescados, explicado bem porque assim eram chamados. Ou procurar os maboqueiros (a árvore Strychnos spinosa) e colher e comer os seus frutos agridoces e sumarentos, de “casca” rija de partir à pedra. Ou observar o espectáculo que davam as grandes manadas de gado bovino a atravessar o rio.
Só o jacaré, também conhecido por Crocodylus niloticus, exactamente a mesma espécie de réptil que pode ser encontrada ao longo do continente africano, até ao Egipto, nunca se mostrou. Afinal, talvez estivesse também em férias. Ou então era tudo uma mentira dos adultos só para nos meter medo, o que explica a relativa indulgência para com as nossas aventuras na água. Mas a memória da sensação permanente de perigo e o olhar atento por cima do ombro ninguém me tira.
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