O homem de turbante preto pega numa pequena saca de pano, desenrola-a, e tira lá de dentro duas pedras pretas. Esfrega-as uma na outra e recolhe os pequenos fragmentos na palma da mão enquanto semicerra os olhos, protegendo-os do sol. Ou será do fumo? Levanta a tampa, abre a mão e espalha o pó dentro do recipiente escurecido a aquecer num pequeno fogão.
Antes, tinha colocado na panela um pouco de óleo vegetal e duas tilapias recém pescadas. Por cima coloca uma pedaço de papel grosso, talvez rasgado de um saco de cimento, e coloca novamente a tampa, dizendo que o assim não pinga para fora. E não pinga.
As pedras pretas são de sal-gema, o mais barato que estes pescadores pobres podem comprar. O branco é caro, e o sal marinho ainda mais.
Estamos dentro de um barco de pesca tradicional, à vela, na costa da Mauritânia, mais precisamente na baía abrigada de R’gueiba, no parque nacional do Banco de Arguim. Aí onde o deserto do Saara se encontra com o mar, e para onde se despeja continuamente em tempestades de areia. Tínhamos estado toda a manhã a ajudar os pescadores a usar as redes para pescar exactamente da mesma forma que eles o fazem todos os dias. O objectivo era estudar a fauna piscícola da região, por encomenda da Direcção do Parque, na época chefiada por um biólogo português.
Depois de feitos os registos das capturas de cada lance, o chefe da embarcação escolheu dois peixes bem gordos, amanhou-os, lavou-os no mar e colocou-os na panela para fazer o almoço.
Esta região é muito pobre mas a pesca assegura alimento fácil das aldeias e a venda de peixe salgado providencia uma maneira de comprar outros produtos necessários à vida dos habitantes. Estes vivem em barracas tapadas com tábuas, chapas e plásticos coloridos, dando uma imagem que se afasta muito do aspecto tradicional das tendas da região, antes da plastificação global. Quando conseguimos chegar à fala, as pessoas são afáveis, talvez por eu estar acompanhado dos funcionários do Parque. Compreenderem que a sua vida está mais fácil pela presença deste, com fundos internacionais e cuidados médicos que outras zonas do país não alcançam. Contudo, são reservadas e observam as recomendações islâmicas típicas da região, o que dificulta a comunicação com os estrangeiros. Mas quase ninguém cá vem, para além dos que vêm observar as abundantes aves, quer as residentes quer as que aqui passam o inverno, alimentando-se nas águas ricas em peixe.
Há milhares de anos desaguava aqui um grande rio, o que ficou registado na paisagem. Com a expansão do deserto o rio desapareceu, o mangal também, e a fauna que ficou teve que se adaptar. Por isso é que podemos encontrar algumas espécies de peixe de rio e que agora vivem em salinidade elevada, como as tilapias já mencionadas que ficaram presas nas redes.
Debaixo de um sol abrasador, temperado por uma brisa marinha, tilapia com sal preto e pão, a bordo de um barco à vela tradicional, junto com os pescadores mauritanos bem dispostos, foi uma das refeições mais curiosas da minha vida.

No barco em R’gueiba. 
Paulo Santos