NOTAS DE MÃO

Ninguém se conhece. No entanto, as notas passam de umas mãos para outras com uma sensação estranha, e sem qualquer registo. Passei 100 ou 150 francos a um barbudo com aspecto pouco confiável sem pensar muito, o que não faria em mais nenhuma circunstância. No primeiro dos anos 80 do século 20 essa quantia era considerável, próximo de meio salário mínimo da época em Portugal…

Minutos antes tivéramos a informação. Na fronteira de Irún/Hendaye, os polícias franceses não deixavam passar ninguém que não tivesse pelo menos mil ? francos, e bilhete de regresso. Cheguei depois a saber que tal atitude fazia parte de uma estratégia de limitação da imigração ilegal para território  francês, onde já trabalhavam muitos milhares de pessoas de toda a bacia mediterrânica, sem papéis. A Situação era geradora de embaraços, tendo mesmo originado acesos debates no parlamento português. Sem resultados práticos, para além das promessas diplomáticas.

Burburinho. Vários ficaram bastante aflitos. Alguns já sabiam e explicaram a maneira usual de ultrapassar o problema: quem tem dinheiro a mais, empresta a quem não tem que  chegue. Simples, mas contra-intuitivo. Continua o burburinho, casais trocam palavras baixinho, a maioria calada medita, encurralada numa situação nova. Quase todos gente humilde, apanharam o comboio para França e tem pouco dinheiro. Procuram uma oportunidade de escapar à vida miserável que tem, vendo ao longe a miragem de trabalho certo e remunerado muito acima do que se pratica na terra.

Foi só um começar e depois quase todos participam na extraordinária acção de altruísmo, esquecendo o risco.

Saímos do combóio e perdemos completamente de vista o nosso beneficiário no meio das centenas de passageiros. Na época os carris ibéricos eram diferentes dos franceses e era necessário mudar as carruagens enquanto se processavam os trabalhos alfandegários.

Nunca tinha visto interrogatório tão minucioso mas quase toda a gente acabou por passar para o lado francês. A pé, claro.

As novas carruagens já estão à espera e toda a gente se instala. Depois, sem qualquer papel onde tivesse sido atestado quem devia o quê a quem, as notas voltaram aos respectivos proprietários. O barbudo chegou à minha beira e disse “Obrigado” ao devolver a nota. Nunca mais o vi.  

Foi uma grande lição de solidariedade que nesse dia tive, e não mais esqueci.

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