Marmelada para todos, menos para mim. Já não suporto o cheiro! O que antes era bom, agora enjoa. Como pode ser possível? Simples. Experimentem passar uma semana voluntários na cozinha, em que a tarefa de várias horas é cortar porções de marmelada para distribuir aos restantes pendurados.
Talvez “pendurados” não seja o termo mais adequado, mas não me ocorre mais nada para designar quem está simplesmente à espera, sem nada poder fazer, do movimento que vai decidir o futuro. São centenas de pessoas, famílias inteiras, ou não, amontoadas, amedrontadas, derrotadas. Deixaram vidas e bens para trás, vão porque não podem ficar, e já partem tarde. Para aqui chegar tinham percorrido centenas de quilómetros por estradas inseguras e cortadas por controles militares de todas as cores.
Para nós durou uma semana ou 10 dias, não me lembro bem, mas a espera foi mais pesada para os mais velhos. Comem-se sopas, pão e conservas, fala-se pouco, dorme-se mal, em mantas estendidas no chão. Lá fora, não muito distante, os estrondos sucessivos prosseguem de forma contínua, provocando inquietação e nervosismo. São as batalhas do cerco a Luanda, no final de 1975. O bombardeamento e disparos avulsos ou de rajada constituem a banda sonora, não de um filme, mas dos dias que passam devagar.
Estamos talvez no único lugar seguro de Luanda, as instalações da tropa portuguesa. Todos aguardam a vez de embarcar na ponte aérea para Lisboa.
No dia que nos calhou, fomos de coluna militar para o aeroporto, ainda controlado pelos militares portugueses, passando pelas ruas e casas de uma cidade sitiada.
A entrada no avião e o início da viagem concedem um aliviar da tensão, mas já cai o peso da gestão do futuro próximo.
O título galhofeiro não condiz muito com o tom cinzento do texto, mas a vida é feita destes contrastes.