Em frente passa continuamente uma “sopa” de peixe ainda meio vivo. Vai carregado por forte corrente de água bombeada do mar para o estreito canal de madeira. Tiro uma dúzia de carapaus para um balde, que o fogareiro já espera com o carvão em brasa. A cada um é só colocar os dedos nas guelras e puxar, sai a tripa toda, passar por água do canal e descer para a praia. Alinhar na grelha, umas pedrinhas de sal grosso e fogo com eles. Já cheira ao almoço, peixe mais fresco não podia ser.
Na Baía Farta havia uma fábrica de farinha de peixe e uma vasta instalação para produzir peixe salgado seco. Não era bacalhau mas parecia. Grandes corvinas, garoupas e outros peixes escalados e cobertos de uma camada de sal proveniente das salinas não muito distantes.
A fábrica era abastecida diariamente com peixe capturado pelas traineiras. Estas acostavam num molhe de madeira com cerca de 200 metros de comprimento, metade dele dentro da água da baía protegida dos ventos. Por cima do molhe, apoiado em postes de madeira, estava instalado o tal canal. Levava o peixe direitinho do barco até à maquinaria de farinação.
De sua graça Trachurus trecae, o carapau era a espécie mais descarregada. Presente ao longo da costa ocidental de África, é um peixe gregário que se alimenta principalmente de marisco, crustáceos pequenos de várias espécies, o que explica o seu excelente sabor. É bom saber que o nome dos carapaus deriva do grego “trachouros” e significa “cauda grosseira” ou áspera, o que se deve às placas dérmicas aceradas que cortam a mão mais delicada.
Voltando ao almoço, é conveniente dizer que a subtração dos peixes estava convenientemente autorizada pelo gerente da fábrica e era válida para toda a semana de férias. Estas eram umas verdadeiras férias de praia, desde a tenda armada à sombra das árvores até ao melhor tempo da vida, passado a nadar, a dar saltos para a água a partir do molhe e a pescar, claro. Levávamos canas de pesca para capturar outros peixes e variar a dieta.
Também não faltavam passeios por perto, ou pelo meio da extensa seca do peixe. Posso confessar-vos que ao levantar a camada superficial de uma grande garoupa a secar ficam à vista umas gordas lascas salgadas, saborosíssimas. Um manjar divinal que fazia parte da rotina diária.
Será por influência desta arqueologia da memória que ainda hoje adoro carapau fresquinho na brasa e bacalhau cru?