TRAMPA DE ALTITUDE

A cinco mil metros de altitude muita coisa tem de ser encarada com alguma relativização.  Por esta razão, alguns factos acabam por se tornar cómicos, quando lembrados com suficiente distanciamento. Vem isto a propósito do mau cheiro e da trampa espalhada pelo chão, uma visão pouco agradável,  é verdade, sobretudo porque não há fuga possível durante mais um dia. A origem dos vestígios tão desagradáveis situa-se no cubículo que tem gravado na porta: 厕所.

na_portaEstamos no comboio para Lhassa, capital do Tibete, numa viagem de dois dias e meio, desde Chengdu. Apesar de ser confortável e novo, o comboio apresenta já problemas estruturais e de gestão. As tomadas na cabine não funcionam, há cortinas avariadas e a higiene deixa muito a desejar. Cada carruagem tem dois tipos de quarto de banho, uns ao estilo ocidental, com sanita, e outros  do tipo chinês, com buraco no chão, à caçador. Todos sem papel e, a partir da primeira noite, mais sujos do que o corredor onde se iniciou esta memória . Mas nem tudo é mau pois também está escrito nas portas: TOILET. Contudo, mesmo que não tivessem tal rótulo, não haveria engano possível…

Esta memória  é muito forte, mas tal só acontece porque vem acompanhada de outras igualmente marcantes, e elas vieram do lado de fora das janelas: paisagens de uma beleza avassaladora. Pela dimensão, isolamento, variação contínua e pela rudeza, acentuada por uma luminosidade quase hipnótica. Para trás tinham ficado outras visões igualmente memoráveis, e outras para diante não seriam menos belas. Aos cinco mil metros, um infindável deserto gelado, com neblina baixa, cercado por escuras montanhas que ladeiam o vale por onde a linha se estende, quase invisível. Pastagens quase monocromáticas, cobertas de neve e semeadas com grandes iaques, vultos peludos que rapidamente vão ficando para trás. Mais abaixo, vastos planaltos em tons de castanho, sem vivalma. Manadas de pequenos cervídeos fugindo à passagem do combóio. Acampamentos fumegantes de pastores e iaques, estes dormindo muito juntinhos, todos brancos ou todos muito escuros. Mais abaixo, pelos tres mil metros, outras pastagens, desta vez com erva muito verde, rodeadas por colinas de estratos multicoloridos que um dia foram o fundo do mar. Vales sucessivos com plantações de cereais amarelados e em plena colheita, aldeões de vestuário garrido e carroças de vários tipos e modos de tracção.  Aqui e além, montinhos de pedras com mastros e várias fiadas de paninhos de vivas cores, as tradicionais preces budistas de proteção e agradecimento.

Voltando ao comboio, devo dizer que dispunha de bicos de oxigénio regularmente espaçados no corredor. Alguém mais afectado por tonturas, dor de cabeça e enjoos, o mal de altitude, podia carregar no botão e inspirar profundamente. Recuperar a compostura, nem todos.  

Esta memória poderia ter saltado os detalhes mais escatologicos, não no sentido bíblico, claro, e ficado pelas paisagens que tão fortemente me marcaram. Se assim fosse, não se distinguiria de uma crónica de viagem numa revista de fim de semana. Também não permitiria fazer o contraste com a estação ferroviária de Lhassa, de uma limpeza surreal, uma clara demonstração de organização e marketing para estrangeiro ver, certamente conseguido com elevados custos. Mas porque não foi aplicado o mesmo princípio, coerentemente, à higiene no combóio. Mistérios orientais.

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Tibete.CC0cc1Paulo Santos

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