SOZINHO NUMA ILHA

Difícil andar com tanto, tanto vento. Impossível prosseguir sem ajuda das mãos e com as costas bem curvadas,expondo a menor superfície possível. O chão, muito irregular dos buracos e dos tufos de erva, também não ajuda. A vinte metros, bicos coloridos espreitando por entre o verde intenso que cobre o solo. São papagaios-do-mar e olham-me de lado, mas não fogem, que sensação incrível para um observador de aves. Do topo as vistas são magníficas, o verde da erva, o negro da rocha molhada, o azul do céu e as cambiantes todas do mar em volta, pouco profundo. Mais afastadas, outras ilhas e ilhotas enchem o horizonte.

Estou numa ilha junto a Rost, outra pequena ilha do Arquipélago das Lofoten, na Noruega, e não foi fácil aqui chegar. Teve de ser primeiro no transporte público de helicóptero, pois o barco demorava muito, e tempo não era coisa que eu tivesse com abundância. Depois, pedi a um pescador que me trouxesse à Ilha, uma zona protegida para aves e sem qualquer habitante. Deixou-me na praia de grandes calhaus rolados e demorei quase uma hora a subir por um trilho que estava marcado com pequenas estacas de madeira e, nos locais mais inclinados, havia cordas para auxiliar a subida. Finalmente cheguei ao topo da ilha e podia ver tudo em redor.
O ruído é intenso, não só do vento que assobia aos ouvidos mas também das gaivotas, nunca tinha visto tantas. Só da Gaivota-tridáctila (Rissa tridactyla) estavam contabilizados na altura 5000 casais nidificantes numa enorme falésia onde também se viam muitos airos (Uria aalge). Estes são elegantes aves a lembrar pinguins, de fato de cerimónia, mas voando muito bem. São iguais aos que já não se reproduzem na nossa Berlenga onde, em menos de um século, se passou de vários milhares para zero ninhos. Sinais dos tempos…

Nessa noite dormi na casa do pescador e o jantar foi típico: batatas cozidas e línguas de bacalhau, passadas na frigideira. No dia seguinte acordei muito cedo com um despertar muito natural. Fui ver e encontrei vários ninhos de gaivotas nas janelas do quarto de banho, todos com fofos pintainhos cinzentos. Não passava pela cabeça de ninguém tirá-los de lá, apesar do ruído que faziam, uma grande lição de coabitação.
Os donos das línguas ficaram para o almoço.
No regresso, o helicóptero passou por cima da ilha onde tinha estado só com as aves. O exercício da memória coloca-nos no centro de tudo, mas nunca como aí me senti mais no centro do universo.

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