O TIGRE QUE FOI COMIDO PELA TRAÇA

O tigre foi mesmo comido pela traça, ou melhor, pelas traças, muitas, e foi a sua perdição. O tigre não era um tigre mesmo, era um peixe-tigre, mas é melhor começar do início.

Nos primeiros anos da década de 70 do século passado (outubro de 1974) fomos a um concurso de pesca no rio Cubango, no sudeste de Angola. Melhor dizendo, no fim do mundo, tão longe e fora de mão ficava. A “prova desportiva” tinha como tema o famoso peixe-tigre, que afinal é um cão da água, do género baptizado pelo famoso naturalista Cuvier, e cujo nome completo é, afinal, Hydrocynus vittatus.

Com uma dentadura fabulosa, este vigoroso animal não é fácil de pescar, pois tudo o que é fio de pesca é cortado em segundos. Esta dificuldade transformou-o em troféu muito apetecido, e havia técnicas que podiam ser usadas para tornar possível a sua captura. Mas o concurso foi uma tragédia e um fiasco.

Foi uma tragédia pois uma criança desapareceu na margem do Cubango. Logo circulou a certeza que tinha sido apanhada por um jacaré, perigo para o qual todos estavam convenientemente avisados. O corpo foi encontrado no dia seguinte, umas centenas de metros rio abaixo e sem qualquer ferimento, inocentando o perigoso réptil, mas não os pais.

Foi um fiasco pois a maioria dos pescadores não conseguiu capturar nenhum dos pretendidos tigres. Contudo, eu fui presenteado com a grande sorte de pescar um exemplar da tão pretendida espécie, o que me valeu o primeiro lugar da classe juvenil. Muitos adultos vieram ver o rapazote que tinha conseguido o que eles não tinham, deixando-me convencido quanto baste. 

De regresso a casa, para tentar preservar o peixe ele foi tratado com repetidas injecções de formol concentrado, uma forma ignorante e tosca de o fazer, e que teve um sucesso relativo. O animal secou, encolheu, e ficou rijo como madeira. Uma autêntica mumificação, mas que deixou bem visível a pele prateada com riscas pretas e a grande boca recheada com os dentes afiados. Cabia numa caixa de sapatos e aí ficou guardado.

Em 1975, a caixa com o tigre foi um dos poucos objectos que consegui transportar de Angola para o Porto, onde vida nova começou, e o troféu ficou arrumado no sótão, à espera de oportunidade para ser convenientemente exposto. Mas a vida dá muitas voltas, a pesca desportiva deixou de ser motivo de orgulho por razões éticas, e o peixe-tigre ficou esquecido.

Anos mais tarde, um exame casual à múmia guardada constituiu uma decepção. As traças tinham comido as fibras e transformado quase tudo em pó. E assim acabou a existência do peixe que foi peixe, mas também cão, tigre e traça.

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