O braço está grosso como uma perna! Está também às manchas escuras que derivam da hemólise extensa, e é melhor nem falar das fortíssimas dores causadas pelo edema, que se estende desde o dedo até ao ombro. Tudo em resultado de um encontro mal resolvido com uma víbora acossada.
A história é meio parva mas a memória é muito forte e começa com uma visita de estudo às Astúrias. Depois de algumas horas nos trilhos de montanha, observando flora e fauna e interpretando a paisagem, alguém deu com um ofídio debaixo de um arbusto e logo um grupo barulhento se acercou. Quando eu cheguei, apontam para uns ramos secos onde se tinha refugiado. Por razões didácticas, decidi capturar o animal para fazer a sua identificação. Tentei imobilizá-lo com a bota mas, com receio de magoar, apertei pouco. Ao segurar por trás da cabeça, como tinha feito tantas vezes com outras cobras e víboras, não fui suficientemente cuidadoso e uma pequena folga bastou para que ela se virar e me morder. Não me doeu nada mas senti como que uma pequena descarga elétrica no dedo e soube imediatamente que tinha sido picado por uma víbora. Olhando para o dedo vi dois pequenos orifícios na pele, chupei imediatamente e cuspi o fiapo de sangue libertado, mas não adiantou nada. Não tardou um minuto para o veneno começar a fazer efeito, inchando o dedo. Com todos a olhar para mim e eu envergonhado até à medula, a víbora afastou-se lentamente e foi então que a vi bem, víbora-de-seoane (Vipera seoanei, e este será o único latim desta história, para evitar tantos nomes que teria de escrever).
O resto do dia foi tão embaraçoso como doloroso. Envolveu o transporte montanha abaixo no veículo do parque nacional até o hospital de Cangas, e depois de ambulância até ao hospital de Oviedo onde a noite foi muito mal passada, prenúncio do que seria toda a semana seguinte.
A lista dos animais que me ferraram ou picaram, pelo menos uma vez na vida, na minha claro, não na deles, já vai longa. Sem qualquer ordenação cronológica, taxonómica, de frequência ou gravidade, posso apontar os seguintes: gato, mosquito, cão, sardão, carraça, percevejo, caranguejo, pulga, chapim, víbora, abelha, vespa, alforreca, aranha, rato-do-campo, ouriço-cacheiro, ouriço-do-mar, peixe-aranha e diversas moscas e moscardos, formigas e coleópteros vários, e ainda todos aqueles pequenos bicharocos que não foram identificados antes de desaparecerem. Outros tentaram mas falharam, como várias gaivotas e um ostraceiro, quando me aproximei inadvertidamente dos seus ninhos. E sanguessuga também conta?
A maioria destas ocorrências não foi provocada. Outras derivaram de menos cuidado e outras ainda de trabalhos destinados a captura de organismos, quer fosse em trabalho ou não. Deixo-vos a tarefa de adivinhar uns e outros.
Sim, estou de acordo com quem diga que a lista é extensa só para uma pessoa, mas é necessário considerar o grande número de horas passadas em ambientes propícios a estes encontros. E este facto não explica tudo, pois a maior parte dos meus companheiros de aventuras nunca foram alvo de tanta atenção, nem estavam mais limpos do que eu…
Este assunto é muito mais sério do que possa parecer, pois mordidas ou picadas de animais são um problema sanitário muito importante a nível mundial. Só para referir alguns números da Organização Mundial de Saúde, em todo o mundo, anualmente, cerca de cinco milhões de pessoas são picadas por ofídios, e dezenas de milhões são mordidas por cães. Também gatos e macacos estão na lista. Acrescentando mais de setecentas mil mortes anuais por malária, dengue, febre amarela e zica, veiculadas por mosquitos, ficamos com uma ideia aproximada do problema.
Colocando as coisas na perspectiva adequada, apesar desta atracção que muitos animais sentem pelo meu sangue e pela minha carcaça, afinal tive muita sorte.

Mão e braço, uma semana depois da víbora. 
Paulo Santos
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