ANTES DO TEMPO

O ombro esquerdo queima. Aguenta mais um pouco. Queima mesmo! Está escuro e caminhamos em fila indiana ao longo da anhara húmida. Mudo o peso para o ombro direito. Também queima. Aguenta mais um pouco. No céu, a via láctea ilumina fracamente o caminho, mas os olhos há muito que se adaptaram. Na verdade, não vejo bem o trilho, tudo a branco e preto, mas sigo confiadamente duas passadas atrás do vulto que segue adiante. Mudo o peso para o outro ombro. Queima mais. O silêncio é apenas acompanhado pelo ruído do roçar das botas na erva molhada, ou pelo piar sobressaltado de uma ave subitamente espantada do seu descanso.  Já perdi as contas ao tempo e só sei que caminhamos há muito porque os ombros pedem alívio e as pernas começam a pesar. O odor a transpiração que me chega da frente é mitigado, entrecortado com o cheiro a erva moída, pisada e repisada, e com os gases orgânicos que se libertam da lama. 

Ao longe, a linha de árvores aparece de vez em quando, se alguém liga a luz durante uns segundos. Nada se move. Andamos mais uns metros, quantos não sei. Terão sido cem ou duzentos e acende-se novamente a luz. Todos param a ver os brilhos a mover-se lentamente para a direita e para a esquerda. São olhos de gazela. A excitação é muita, os olhos arregalados pela visão efémera dos animais, e esqueço-me das pernas e dos ombros. Murmura-se: ainda estão longe. O holofote apaga-se e a carabina é-me subtraída rapidamente. Que alívio! Sinto-me mais leve, agora que este episódio de iniciação ao mundo dos adultos teve intervalo. É incrível como, ao fim de andar uns quilómetros, três quilos ao ombro fazem muito impacto num rapazito de 12 anos! Ou seriam 10? Não me lembro bem.

Caminhamos agora mais rapidamente e em silêncio em direcção ao local onde os olhos tinham sido avistados. De quando em quando, o holofote acende-se por uma fracção de segundo, movimentando-se em espiral, talvez hipnoticamente, numa verificação da posição. Ficando mais nítidas à medida que vamos ficando mais próximos, as gazelas inquietas não suspeitam do que está prestes a suceder-lhes.

O tiro! Depois outro, e outro.

O holofote agita-se de um lado para o outro, fragmentos de uma debandada, os olhos brilhantes das gazelas aos pulos em todas as direcções, sente-se o pânico, e rapidamente tudo desaparece.

Mais uns metros e chegamos ao corpo tombado que treme durante breves momentos, os grandes olhos arregalados, um cheiro forte a bicho selvagem e aos excrementos que surgem com a morte.

Imagens que ficaram de uma experiência antes do tempo, ou talvez não.

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