Não é bem um dicionário mas um conjunto de conceitos muito pessoais destilados recentemente, numa fase da vida em que se morre mais ou menos lentamente. São palavras que adquiriram outra importância, outro significado, outro contexto. Abaixo escrevo algumas (AINDA INCOMPLETO). Grande parte delas foram escritas no ano de lançamento, 2019, e as restantes foram adicionadas depois, pouco a pouco, à medida que se tornaram relevantes.

A
Agradecer. Todos os dias. Por cada dia, cada refeição, por cada sorriso… Faço-o muito para dentro, tenho que o fazer também para fora.
Amigos. Sei que posso contar com eles e que me têm tornado a vida aceitável.
Amor. Tenho recebido tanto, e sei que não soube dar nem metade, o que me deixa desconcertado, incompleto…
B
Babar. Babar-me por tudo e por nada? Não, só por nada, apenas mais um sinal de descontrole muscular, embaraçoso.
Bem. Viver bem. Sim, tive a sorte de estar no lado bom do planeta. Por essa razão, e por outras, percorremos um caminho de vida boa, que não boa vida. Fizemos muito, vimos meio mundo, maravilhas e não só, tudo sem pisar ninguém. Tentei ser um homem bom, que não um bom homem, mas receio ter ficado aquém dos padrões que estabeleci.
C
Comer. Sempre gostei de comer mas, à medida que o tempo passa, o balanço entre o prazer e o incómodo tende para zero. Menos mal enquanto não é negativo.
Companheira. Eu tinha uma companheira e agora tenho um anjo da guarda.
Corpo. Durante muitos anos pensamos, de forma arrogante, que somos donos do nosso corpo. Afinal, ele é que é o nosso dono. No limite, somos seus prisioneiros.
D
Desvanecimento. Com este termo quero designar comportamentos, decisões, atitudes, etc. que tenho, no sentido de me desligar progressivamente da sociedade onde estive inserido de forma tão activa, quer a nível profissional quer de cidadania interventiva.
Dor. É muito curioso mas, quando ela já se tornou num factor diário sempre presente, aprendemos a secundarizá-la. Contudo, nem sempre é possível esta desvalorização. Talvez com uma disciplina mental mais oriental fosse possível, mas já não me apetece aprendê-la.
Dissimular. Não é bem fingir ou mentir, apenas esconder, melhor ou pior, o que pode preocupar ainda mais quem nos rodeia e se preocupa connosco.
E
Ela. Ou melhor, E.L.A. Significa Esclerose Lateral Amiotrófica. É uma doença degenerativa do sistema nervoso, sem cura, que acarreta paralisia progressiva até ao colapso respiratório, se não for antes. Obriga a dependência extrema e redefinição de objectivos, prioridades e comportamentos.
Esperar. Para esperar bem, é preciso ter toda a sabedoria do mundo… Espero hoje como nunca esperei, por grandes e pequenos detalhes, desejos ou necessidades básicas. Infelizmente, não tenho toda a sabedoria do mundo, só alguma.
F
Falar. Era fácil, já não é.
Falta. Falta de muitas coisas, mas agora é sobre a falta de ar. Nunca tive, agora tenho. Diariamente, mais do que uma vez, fico com a garganta mais ou menos obstruída por secreções, causando uma sensação desagradável de asfixia. É uma situação que se vai resolvendo com mais ou menos tosse. Quando dura pouco, tudo bem. Quando demora mais, a adrenalina sobe.
Família. É o que me segura. Os familiares mais próximos ficaram muito afectados com o que me tem mudado, e deixaram de poder contar comigo. Eu é que dependo deles para quase tudo, mas continuam a dar-me motivos para eu apreciar a vida, mesmo como ela agora é.
G
H
I
Ir. Vou ali – conjunto de duas palavras a que antes não atribuía valor mas que foi subindo gradualmente de importância, de forma inversamente proporcional à minha capacidade de deslocação livre, até deixar de a ter, quando deixei de poder andar. O verbo ir é um dos que deixaram de ser conjugados na primeira pessoa. Já não há “vou ali”, agora é “vamos ali?”
J
K
L
Lágrima. Esta entrada também podia ser “lamechas” ou “piegas”, mas não tinha o mesmo lirismo. O facto é que agora, frequentemente, me vem a lágrima ao olho, numa cena de um filme ou ao escutar uma ou outra canção… Não sei se é da idade, da doença ou da vida em parasitismo que me alterou as hormonas.
Livros. Primeiro eram livros de ver, depois de ler, agora de ouvir. Recentemente, os audiolivros tomaram o lugar dos livros em papel que me foram acompanhando na maior parte da minha vida e que, por sua vez, já tinham substituído aqueles da tenra infância que eram só para ver.
M
Morte. Já me cruzei várias vezes com ela, a morte. Algumas delas de muito perto, sobretudo nos últimos tempos, mas ela não pousou… Mudou alguma coisa na minha vida, em consequência de tais encontros? Penso que não. No entanto, aproxima-se o momento em que desejarei uma morte rápida. Por muito crua que a afirmação possa ser, assim é como penso.
Música. Sempre gostei de música, esteve presente na família desde que me lembro. Actualmente é ainda mais importante pois é um dos pequenos prazeres que bem depressa ponho em andamento, quase sempre que quero.
N
O
P
Pedir
Prazer
Q
Querer. Verbo que passou de fácil a difícil conjugação. Só nesta fase da vida me apercebi da quantidade enorme de pequenas acções, gestos, vontades que temos diáriamente e que deixamos de poder querer, o que implica uma auto-disciplina e adaptação mental bastante exigente, desgastante, frustrante, dolorosa até. Quando a autodisciplina relaxa dou por mim a querer o que não posso, e não são raras as vezes que rio de mim próprio, para dentro, quando disso tomo consciência.
R
Relatividade. Não é a famosa teoria, é uma realidade que nos tira do centro do universo para nos mostrar que há muitos que estão em pior situação que nós.
Rir. Um modo de me sentir vivo é o riso, ou simplesmente sorrir. Façam-me sorrir…
S
Sexo. Sim.
Suicídio. Aquilo que não se faz enquanto temos alguma coisa para dar e depois, quando já não temos, não conseguimos fazer.
T
Tempo. Quando temos tempo, não temos tempo de ver que não temos muito tempo. Quando deixamos de ter tempo, já não temos tempo de tomar ao tempo o tempo de que necessitamos.
Tolerância.
Tossir. Verbo que designa uma função menor, mas que se tornou essencial para mim. Primeiro a espaços, agora acompanha-me a todo as horas, e é o modo de me ver livre da abundante expetoração que me dificulta a respiração, me sufoca. Quando começo a sentir entupimentos e falta de ar, peço, e fazem-me tossir com uma máquina, verdadeira salvadora.
Trabalho.
U
V
Velhice. Em 2011, quando me deram pouco tempo de vida, senti que me tinha sido subtraída a velhice, no sentido que lhe dava: um processo de transformação lenta em avôzinho trôpego. A degradação foi muito rápida, quase sem tempo para adaptação. Hoje, passados 9 anos (no momento em que escrevo este parágrafo) encontrei um novo sentido para o envelhecimento. Grato por ainda ter função na família e na sociedade, fiquei velho muito rapidamente, mas estou a chegar onde pensei nunca chegar.
Viajar.
Vida. Tem sido boa. Compromisso com a família, com o trabalho, com a sociedade. Tem sido bom fazer um pouco de tudo, experimentar um pouco de tudo, ver um pouco de tudo. Felizmente a doença apareceu tarde, não me impediu de ter uma vida realizada.
Paulo
Depois do Z (dicionario desvanecente) veio esta janela …
Que dizer?
Um misto de sentimentos … de memorias, de lembrancas e experiencias pessoais ou proximas … e alguma incapacidade de o exprimr por palavras …
Por outro lado dar-te os parabens pela iniciativa e gabar-te a atitude: seguir em frente, enfrentar os desafios, adaptar e estar flexivel para mudar e aprender …
usando a ‘cutting edge technology’ adequada para o espirito sempre empreendedor.
E’ um privilegio ter-te como referencia e modelo a seguir
Grande abraco
Abel
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