As palavras estavam do avesso e como que arrepiadas. Decifrar o texto na superfície ondulada do novelo de cinzas foi um desafio. Feitos detectives, entusiasmados na ânsia da descoberta, a rapaziada dissecou lentamente o stêncil queimado que se desfazia a cada toque. As frases ainda legíveis foram verbalizadas lentamente, palavra a palavra, para que todos … Continue reading STÊNCIL QUEIMADO
ARQUIVO
HOTEL AEROPORTO
No primeiro dia não vi o sol. Nos seguintes mal apareceu, encoberto pelas nuvens escuras, carregadas, trazidas por um vento frio. Chovia. Daquela chuva miudinha, chata, persistente. As árvores já tinham perdido quase toda a folhagem. Os ramos nus, erguidos ao céu, pareciam mãos com dedos nodosos e alongados. Folhas mortas, castanhas, amarelas, amontoavam-se no … Continue reading HOTEL AEROPORTO
SUBITAMENTE FALTOU-NOS O CHÃO!
Vemos as copas das árvores passando rapidamente a poucos metros de nós. Ao longe, em frente, a neve cobre o topo dos montes. Subitamente, um som abafado de surpresa escapa-se das bocas, mãos agarram-se instintivamente. Falta-nos o solo! Estava ali mesmo e num segundo fugiu. Está agora mil metros lá para baixo. Estreita fita prateada, … Continue reading SUBITAMENTE FALTOU-NOS O CHÃO!
O LEITEIRO E A INÉRCIA TRAMARAM-ME
Não tinha ainda percorrido duzentos metros e já eu caía do carro. Pulso e joelhos esfolados, e também uma grande amassadela na autoestima. Era o preço de uma decisão menos ponderada, de uma má avaliação e, convenhamos, algum azar. De visita a familiares, calhou passar o leiteiro no seu veículo adaptado com uma plataforma na … Continue reading O LEITEIRO E A INÉRCIA TRAMARAM-ME
OS LOBINHOS
Os dois adultos afastaram-se receosos e pudémos aproximar-nos do seu covil, devo confessar que não de modo totalmente confiante. Era um abrigo tosco com 2 lobinhos, bolinhas de pêlo fofo, olhos cinzentos e patas robustas. “Podem pegar neles, se quiserem.“ Quisémos. Ganiam levemente e cheiravam mal, mas mesmo muito mal, a carne em decomposição. Nunca … Continue reading OS LOBINHOS
CHEIRA A MAR!
Depois de algumas horas de viagem, a estrada abandona as rectas intermináveis e começa a curvar-se, primeiro suavemente, depois de forma mais pronunciada, adaptando-se à orografia da paisagem. Um de nós exclama subitamente: Já cheira a mar! É o segundo sinal de aproximação do fim da viagem, depois das curvas da via terem avisado. Faltam … Continue reading CHEIRA A MAR!
JÁ NÃO SE VÊ DISTO
O vendedor percorreu um a um o dicionário de adjectivos, mas só os bons. Primeiro descreveu as qualidades do animal, “admirável” e outros epítetos, depois as do produto, “melhor não encontram”, no mínimo… Chapéu na cabeça, numa mão o microfone, na outra uma varinha, falava do alto de um estrado. A pequena multidão, atraída pelo … Continue reading JÁ NÃO SE VÊ DISTO